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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Dia da Terra, o sol, as flores, de cores amarela e roxa, flanqueando os caminhos nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra. O aspecto, dos campos impressionam, tapetes de alegria a perder de vista não deixam indiferentes aqueles que percorrem as estradas apertadas. Dão esperança, iludindo a alteração do estado de emergência em que o planeta se encontra. O alívio urbano dá que pensar na aldeia do Vale de Açor, os veículos pesados a transportarem grandes (...)
A memória prega-nos embaraços, nalguns casos sem que o possuidor do constrangimento tenha consciência. Aconteceu com o Gregório, leitor desde sempre na biblioteca ambulante, segundo a sua mulher, a sua memória é um turbilhão de lembranças. A guerra colonial, os ofícios desempenhados ao longo do tempo, são expulsos repentinamente da cabeça. Está nisto, dia e noite, deitado na cama. Fala sozinho, com o silêncio, traz à tona o passado, pedaços de vida desconhecidos, daqueles (...)
O vento sacode a biblioteca ambulante, embala o berço das histórias, o mata-borrão que impede as palavras se dispersarem no papel, que não conhece ainda o amor de quem as escreve. A perpetuar acontecimentos, personagens, emoções, reunidos nas nuvens, impelidas com vigor pelo vento. Está frio, o odor a fumo vindo das chaminés impregna a aldeia das Bicas, a rapidez do ar incita as brasas nas lareiras. Torna os leitores mais ardentes, puxando-os há biblioteca ambulante, chegam (...)
Há histórias novas na biblioteca ambulante, oportunidades diversas, informação local, escritas diferentes, enredos, política, ideias e acções, criadas pelas canetas de quem as escreveu, na Rússia, na América, na Islândia e Portugal. Lugares distantes uns dos outros, separados pelo oceano Atlântico e pelo Estreito de Bering, onde a tinta que dá vida às palavras, sublinha a importância da escrita através dos tempos. Não há barreiras a impossibilitar o avanço do (...)
- O patrão foi à Bemposta! Foi a expressão que a mulher do Gregório mencionou, único leitor da aldeia do Vale de Açor. – Eu aguardo! Respondi-lhe! Com esperança que o Gregório não se atrasasse nos seus afazeres na outra aldeia. O sol espreita, o frio foi dar uma volta, o tempero matinal é bom. A biblioteca ambulante tem as portas abertas, a convidar as pessoas da aldeia a espiarem as histórias. A seguirem o exemplo do Gregório, leitor desde o primeiro dia da visita da (...)
O rio Tejo está vazio, do alto da ponte rodoviária, nas viagens e andanças, advinho a sua intimidade. O nevoeiro concentra-se nalguns locais do trajecto, a estrada molhada fere a vista, pelos raios do sol projectados no asfalto. Na aldeia das Bicas as árvores despem-se e dançam ao mesmo tempo, estou animado por testemunhar a sensualidade destas belezas da natureza. Desnudadas e com as folhas a seus pés, desvendam as cicatrizes do seu crescimento, as partes ocultas, onde as aves se (...)
Farinha sem fermento (2Kg), azeite (1l), mel (500ml), açucar amarelo (1Kg), nozes (200g), erva doce e canela. Esta e outras fórmulas de ingredientes para fazer histórias doces trazidas do passado através da oralidade, escritas em papel, à pressa, para não se perder pitada. Tesouros açucarados a espreitarem a luz do dia sempre que há celebrações, é o caso das broas com a aproximação do dia de Todos os Santos. As substâncias são amassadas energicamente por mãos experientes, (...)
A estrada continua a levar a biblioteca ambulante às aldeias da minha terra, o dia resignou-se aos momentos da chuva.  À vontade de molhar tudo, puxando as pessoas para locais onde não se deixam ver. Ousam andarem na rua debaixo dos guarda-chuva, ou correndo para minimizarem a molhadela, não arriscam entrarem no espaço das histórias. Os automóveis passam pela biblioteca ambulante estacionada, a velocidade excessiva para uma rua na aldeia das Bicas, sacode as páginas das (...)
O sol está toldado, apanhado de surpresa na desaceleração repentina do verão, a marca da travagem está representada nas pessoas a usarem casacos com pouca espessura. Nesta semana, nos dias infernais, saíamos para a rua  livrando-nos da roupa possível, tentando estarmos mais confortáveis. O vai-vem do planeta está cada vez mais instável, as viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, são fortemente influenciadas pela ausência da firmeza climática. As (...)
Pela manhã não foram os 35º de temperatura a demover o viajante das viagens e andanças de iniciar a semana a levar as histórias aos leitores. A primeira paragem do dia foi no Centro Social de S. Miguel do Rio Torto, ouvir o que os mais velhos têm para contar. Infâncias sem escola para alguns, as mulheres foram as que tiveram menos instrução, famílias alargadas, onde os irmãos mais velhos tinham o privilégio de se sentarem nos bancos da escola. Os restantes, ficavam em casa, (...)