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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Na rua, as mulheres atravessam-na, como se tivessem todo o tempo disponível do dia para percorrem a pé, o arruamento que termina no miradouro, situado sobre uma das extensões do rio Zêzere. Uma paisagem deslumbrante a perder de vista. Até lá, a correnteza de casas, algumas, simplesmente, com gente nas férias de verão, vêem as mulheres a palmilhar a distância. Uma delas apoiada num pau comprido, comanda a caminhada, a outra, ficou para trás a dar dois dedos de conversa, a uma (...)
A ramagem das tílias está suficientemente frondosa para dar existência à sombra. É nesta que a biblioteca ambulante se esquiva dos raios solares, quando permanece na aldeia de Martinchel. As flores destas árvores ganham força e impressão visual, a progressão dos dias trará cor às flores. Do mesmo modo, conduziram uma leitora nova, destacando-se, assim, das outras pessoas da aldeia. Assumindo-se como uma flor da árvore, cujos frutos são as histórias, a semente que um dia irá (...)
Num dos confins do território das aldeias da minha terra, a biblioteca ambulante com as portas abertas tenta a sua sorte, na eventual presença de algum leitor. Adiante, o limite da região das viagens e andanças impede as histórias de irem mais além. A fronteira é uma linha imaginária, os automóveis aproximam-se oriundos dessa linha, outros dirigem-se na sua direcção. A escrita não tem fronteiras, as palavras disseminam-se como a tinta derramada de um tinteiro, deixando a (...)
O rio Zêzere no seu ponto de chegada à barreira que modera o seu curso natural, desaperta as águas para podermos estreitar relações mais próximas. No Bairro Cimeiro, o horizonte estende-se a perder de vista, um vasto espaço para escrever histórias sobre as pessoas destes lugares. Imaginar como seriam os lugares antes da construção da parede que fez parar o rio. Em Martinchel o barbeiro, em pé, à porta do estabelecimento, está a escrutinar, o aparecimento de algum cliente para (...)
Há uns dias atrás em conversa com um leitor a propósito dos tempos que testemunhamos actualmente, sobressaiu o acontecimento do 25 de Abril de 1974. Perguntei, o que fazia nesse dia, que mudou o paradigma político e social até então. Respondeu que estava a trabalhar, na fundição do Rossio ao Sul do Tejo. Soube da notícia, da queda do governo de Marcelo Caetano, nesse dia, até de madrugada não tirou os ouvidos da telefonia. Na fábrica o dia de trabalho decorreu normalmente. O (...)
Na Aldeia do Mato as ruas apresentam ainda as cicatrizes originadas pelas pás das escavadoras, manobradas por operários, cirurgiões, dando formas a projectos na construção civil, que desventraram o subsolo da aldeia. Trocaram, melhoraram, e estenderam as entranhas, nas quais a água corre ao encontro das torneiras, quando é precisa nas casas dos aldeões. Como se fosse uma aparição, o padre, apesar das demasiadas paróquias a seu cargo, isto anda mau para todos, surgiu, segurando (...)
Não consigo evitar de abrir a boca involuntariamente, o bocejo está sistematicamente a assaltar-me. Não estou aborrecido, talvez sejam efeitos dos comprimidos para atenuarem a constipação. Arrebatou-me no fim de semana, e está difícil de expulsar. Acontece o mesmo com o sol, depois de uma manhã cheia dele, foi tomado ao início da tarde por uma espessa camada de nuvens. De repente, a tarde transformou-se, vieram leitoras com ânimo, contagiaram o viajante das viagens e andanças (...)
A chuva premeia a ousadia dos automobilistas, fraccionando a intensidade  da queda na estrada, nas viagens e andanças. Há momentos em que a quantidade da pluviosidade impõe um comportamento mais atento em determinados caminhos, ao encontro dos leitores. O mesmo cuidado têm alguns deles, ficam em casa, não se querem molhar, a leitura pode esperar para a próxima visita da biblioteca ambulante. Também os há audazes, sem medo da bátega, impossibilitando-lhes a manutenção das (...)
Voltamos a ler em voz alta,  foi como se estivéssemos ao redor de uma fogueira. A chama, ou a mistura de palavras andando de mão em mão, aqueceu a história  destas mulheres, trouxe lentamente outras palavras, ancoradas na alma de cada uma. " Gosto de gostar, escrito pela Helena Sacadura Cabral ", moveu capítulos há muito tempo vividos, começaram novamente a viajarem nas marés do Natal, da infância, do presente, num oceano que não esqueceram. Os ventos levaram-nas para (...)
A paisagem é um livro aberto, a destruição de restos lenhosos oriundos das videiras, das oliveiras, de escritas anónimas nas folhas amarelecidas pelo tempo. O aniquilamento, transformado em pó, após a combustão, é lançado na terra. Uma combinação estimulante para as novas ideias, daqueles que nunca desistem  de pegar na caneta a semearem histórias. No ar, uma névoa de pensamentos espalha-se pelas aldeias da minha terra, leva a esperança, sossega as pessoas.