A chuva estabeleceu-se de forma duradoura nas aldeias da minha terra, há pedaços de tempo onde cai sem piedade, noutros tomba delicadamente sobre o largo, deserto. O céu cinzento parece abater-se sobre a biblioteca ambulante, não é a noite a cair, ainda é cedo para tal acontecer. É a antevisão de uma tarde sem leitores, não fosse a erva vivaz escapando-se por entre as pedras do largo, sobressaindo a cor verde, a tarde estaria a meia-luz. Não há vento, os majestosos plátanos (...)
Em algum lugar o outono despertou, as manhãs têm acordado debaixo de neblinas, as noites estão mais frias. Os dias ficam curtos nas aldeias da minha terra, a bravura da temperatura sente-se após o pino do sol. As viagens e andanças estão mais agradáveis, os leitores saem à rua, esperam as histórias com sorrisos nos lábios. Há um ambiente diferente, de mudança, parece estar tudo arrumado, a inquietação, daqueles dias abrasadores desesperando as pessoas, ficou para trás. (...)
O dia rompeu com o sol de uma cor laranja forte, dando pistas nada favoráveis para as próximas horas. Aliás a temperatura quando a amanhã abria os olhos, estava aprazível, mais, do que as madrugadas anteriores. Nas aldeias onde a biblioteca ambulante assoma, as pessoas queixam-se da elevada inquietação do sol, da sua falta de discernimento por aqueles que o estimam. No inverno, quando está presente, libertando calor aos aldeões, nos dias em que a geada aprisiona tudo. Sentados (...)
Nas aldeias da minha terra, o verão não é o mesmo, verão, onde se bebe limonadas, ou saboreia gelados, a vermos o mar. Aqui, existem oceanos de floresta a lamberem praias, plantadas de hortaliças e legumes. A terra ajuda, dá berço às sementes e plantas. Cava-se a terra para alimentar, não se constroem castelos de areia para desabarem debaixo das vagas trazidas pelo movimento dos ventos ou marés. O vento nas aldeias da minha terra, traz, a fúria dos homens, o fogo, destruidor (...)
Um tractor abastecido da alfaia agrícola, avança lentamente, arrastando as ervas por onde passa, puxando-as com força pelo princípio. As ervas cresceram, estão sem controle, o risco de incêndio é enorme, há que preparar os terrenos para receberem em segurança a violência do calor. A poeira no ar é visível quando a biblioteca se aproxima do local onde decorre o desbaste. Na passagem pela aldeia da Bemposta, há, quem ainda, termine a caiação dos muros. A festa anual da (...)
A aldeia da Foz, encontrava-se localizada no fim do mundo, no meu pensamento, quando aqui cheguei pela primeira vez. Continuei a voltar, até hoje, o resultado da opinião que tinha do inicio, não é o mesmo. O isolamento, a escassa população, sem serviços básicos, os problemas da interioridade, em tudo, semelhantes a todas as outras aldeias da minha terra. Encostada ao concelho da Chamusca, é uma porta, para uma grande extensão, da vida silvestre no Ribatejo. Caracterizada (...)
O sol brilha, os pássaros produzem sons de fazer inveja a muitas orquestras, plateias de perder a vista num pavimento verde. Espectadores são os animais, aves de espécies diferentes aplaudindo de pé a cantoria dos predestinados, enchendo os ouvidos do viajante das viagens e andanças. A primavera demonstra capacidades, dar um empurrão aos aldeões, um deles, aproximou-se da biblioteca ambulante, manuseando o telemóvel, tentando captar o wi-fi que permite o acesso à internet. Ficou (...)
As lágrimas da charneca não param de correr, não sei se é alegria pelo regresso da biblioteca ambulante a percorrer a sua alma, a experimentar o mundo rural, ouvindo as suas pessoas, as histórias das aldeias. Pela tristeza dos dias vindouros, com demasiados velhos onde a prioridade do resto das suas vidas não é a leitura. Não há jovens leitores, ou seja, os que lêem na biblioteca ambulante não se distinguem. O sol nas últimas semanas também não consegue tornar-se notável, (...)
As cores outonais nas folhas das árvores destacam-se na manhã cinzenta, nas viagens e andanças. Assim também sobressai a biblioteca ambulante na cor da sua carroçaria, ao percorrer as aldeias da minha terra. Notabiliza-se pela carga que transporta, não é uma folha igual às outras, mas consegue voar como elas de uma ponta à outra do território à beira rio. É uma folha capaz de captar pessoas para a leitura, faz trocas de histórias com leitores. Um processo cheio de (...)
As nuvens ameaçam coisa nenhuma, não sei se virão leitores, o largo em Alferrarede permite a passagem de uma aragem amena, de pessoas alheadas sem perceberem a vibração das palavras, nas histórias da biblioteca ambulante. A libertação de emoções acumulada na camada espessa de páginas sem fim. Ou as explosões que ocorrem no interior dos leitores todas as vezes que as palavras atingem o hipocentro, a alma das pessoas. Caminham apressadas, com os olhos postos no chão, como se (...)