- A minha mãe fazia assim! Ouve-se no pequeno espaço uma voz isolada. Logo outra se faz entoar mais alto. - A minha avô colocava meio litro de azeite... Mil uma receitas podiam ser descritas naquele momento no grupo de mulheres, leitoras da biblioteca ambulante, enquanto preparavam as broas. São pequenas histórias de vida, memórias, amassadas por mãos calejadas por anos de trabalho rural, continuam a manter os costumes, sem a inquietação dos outros tempos. A remontar, (...)
Os rostos expressam alegria, abertos, a quem observa as tecedeiras da «Manta de histórias». Yara Kono, a ilustradora da história infantil, sempre incansável a assinar pelo próprio punho, a obra, inspiradora destas mulheres, oriundas das aldeias da minha terra. Ela própria impressionada pelos trabalhos. A manhã foi de apreciar as palavras entre as obreiras da confecção, do lado exterior da colmeia. Biblioteca ambulante, espaço onde são fabricadas inspirações, através do (...)
O sol bate na biblioteca ambulante, na rua, um velho segue o traço preto, orientando-o em direcção ao Centro de Dia. Onde ficará até ao final da tarde, depois chega a noite, não vem sozinha, a solidão instala-se na casa do velho. É visita habitual, o velho não estranha, dialoga consigo próprio, com as memórias penduradas numa parede. A mulher há muito que partiu, na aldeia não tem mais ninguém, é no Centro de Dia que passa os dias, junto a outros na mesma condição. O (...)
Um tractor abastecido da alfaia agrícola, avança lentamente, arrastando as ervas por onde passa, puxando-as com força pelo princípio. As ervas cresceram, estão sem controle, o risco de incêndio é enorme, há que preparar os terrenos para receberem em segurança a violência do calor. A poeira no ar é visível quando a biblioteca se aproxima do local onde decorre o desbaste. Na passagem pela aldeia da Bemposta, há, quem ainda, termine a caiação dos muros. A festa anual da (...)
Um homem montado na sua bicicleta abranda a marcha ao aproximar-se da biblioteca ambulante. Até agora foi a única pessoa na aldeia do Souto a percorrer a rua. Apesar de travar a celeridade, não chegou a parar, olhou as histórias fugazmente, deixou-se ir, aproveitando a inclinação da rua, quando esta alcança o coreto da aldeia. Levantou-se cedo, sobre a mesa da cozinha uma caneca de café esperava-o, fumegando, a bandeira de xadrez agitando-se para o início de um dia activo. A (...)
As gotas de água não chegam ao mesmo tempo, batem no vidro grande da biblioteca ambulante, uma de cada vez. Os leitores também não entram no espaço das histórias juntos, um de cada vez, sobe, pelo degrau improvisado (obra notável do ofício de carpinteiro), para se reunirem a perscrutar. Pode acontecer, assim como sucede com a chuva, períodos de ausência, uma seca, para o viajante das viagens e andanças, para os solos, agricultura, e barragens. Quando ambos chegam é uma (...)
As mãos prendem a manta de histórias, não querem deixar sair dos retalhos as memórias da longa vida que possuem. Histórias imortalizadas pela criação de cada uma, vidas cruzadas por fios, por tintas, materiais diversos. Mais importante, a oralidade, a leitura que aprenderam a gostar na biblioteca ambulante. Quatro caminhos, bruxas, homens transformados em lobo nas noites de lua cheia, narrativas que ouviram contar ao calor da lareira, no tempo em que a televisão era uma miragem. (...)
A chuva premeia a ousadia dos automobilistas, fraccionando a intensidade da queda na estrada, nas viagens e andanças. Há momentos em que a quantidade da pluviosidade impõe um comportamento mais atento em determinados caminhos, ao encontro dos leitores. O mesmo cuidado têm alguns deles, ficam em casa, não se querem molhar, a leitura pode esperar para a próxima visita da biblioteca ambulante. Também os há audazes, sem medo da bátega, impossibilitando-lhes a manutenção das (...)
Voltamos a ler em voz alta, foi como se estivéssemos ao redor de uma fogueira. A chama, ou a mistura de palavras andando de mão em mão, aqueceu a história destas mulheres, trouxe lentamente outras palavras, ancoradas na alma de cada uma. " Gosto de gostar, escrito pela Helena Sacadura Cabral ", moveu capítulos há muito tempo vividos, começaram novamente a viajarem nas marés do Natal, da infância, do presente, num oceano que não esqueceram. Os ventos levaram-nas para (...)
Trago comigo os sabores dos enchidos, os odores das castanhas assadas, das histórias narradas ao redor da mesa grande. Continua-se a aprender na velha escola em Alferrarede Velha, a viagem não terminou, uma vez por semana, quando voltam, tropeçam na meninice passada na sala de aula. As castanhas assam-se num forno eléctrico, não há lugar para a fogueira do costume. Nem assim deixa de ser um magusto, só para não se perder no tempo a celebração do dia de São Martinho, (...)