Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Um deles mencionou em voz alta que as histórias não falam. Imediatamente a professora corrigi-o, dizendo para todos, que as histórias, se exprimiam por palavras, e conviviam com quem lhes tocasse ou lesse. Nenhum deles hesitou, atiraram-se, os olhos mergulharam nas letras, nadaram no meio das linhas, rodeando as imagens lentamente. Quem os observasse, veria os peixinhos coloridos no aquário, nadando de um lado para o outro. Às vezes a rapidez das braçadas colocava-os num instante no (...)
A primavera continua frouxa, boa para as pessoas alérgicas ao pólen. Assim como eu, enquanto esta sobe pelos próprios meios, apesar das investidas de alguns elementos naturais mais perturbadores, até ao verão. A sensibilidade às substâncias microscópicas vagueando aleatoriamente no ar, não me deixam descansado. Há uma árvore alta, perto do local onde a biblioteca ambulante permanece, no meio da folhagem, saltitando de ramo em ramo, os pequenos pássaros levam uma existência (...)
O sol umas vezes está escondido, noutras surge brilhante, dificultando a observação a uma possível vinda de um leitor. Na aldeia do Crucifixo são poucos os que se atrevem, um deles, é uma jovem, regressa da escola no autocarro, cuja, paragem é logo a seguir ao sítio da permanência da biblioteca ambulante. Tem dias que inverte a direcção do seu destino para entrar e escolher uma história para levar. O meu olhar dirige-se sempre que ouço um som de motor ao longe, no sentido da (...)
A manhã começa a ficar abrasadora, mesmo assim os meninos do infantário compareceram na biblioteca ambulante. Acompanhados pela professora, segurando as mãos uns dos outros, uma corrente para agarrarem um futuro com mais igualdade, entraram cheios de curiosidade, olhando imediatamente para as histórias. Estas pulando de contentamento nas estantes, denunciavam muita determinação em saltarem para as mãozinhas da pequenada. Mãos, ainda, com pouca experiência a folhearem as (...)
A biblioteca ambulante, é e será sempre uma janela aberta nas aldeias da minha terra. Onde os aldeões, os leitores, possuem a sorte, estarem debruçados para a Rua dos Saberes. Verem passar as palavras, as letras de mãos dadas umas com as outras, conhecerem de perto quem as empurra pela rua adiante. Há sempre olhares sedutores de quem passa, para quem está sempre de olho à espreita. A torrente de palavras na rua não tem fim, umas atrás das outras, a provocarem risos, a puxarem (...)
O barulho é ensurdecedor, o espaço exterior do infantário é o estaleiro das obras necessárias à reabilitação do mesmo. Amontoam-se resíduos de alvenaria, e outros materiais obsoletos, ampliam-se as salas, dão-se condições melhores para as crianças, professoras e auxiliares. A biblioteca ambulante complementa a necessidade literária nos dias da visita à vila do Tramagal. Não é uma estranha aos olhos dos miúdos, conhecem-na, frequentam-na, estão habituados a retirarem (...)
A torrente das águas do rio Tejo, corre desembaraçada para jusante, ao lado do Tramagal, em direcção a Lisboa. Águas castanhas lambendo as margens, as bordas de um prato com vestígios de algum arvoredo destruído pelas intempéries do inverno. A natureza renovando-se como pode, aproveitando oportunidades, assim fossem as pessoas, agarrarem as histórias na presença da biblioteca ambulante nas aldeias. Tramagal aqui tão perto de Abrantes, à vista desarmada, mas distante nas (...)
Estou curioso em saber quantos leitores estarão na biblioteca ambulante, o céu farrusco, a temperatura baixa, é o cenário desta tarde nas viagens e andanças. No Tramagal tenho leitores sempre presentes todas as vezes que a biblioteca ambulante permanece defronte da Junta de Freguesia. Aqui, as histórias andam sempre numa roda viva, entram e saem a toda a brida, sempre, em primeiro lugar, com a avaliação do bibliotecário.  Olho para o resto da folha em branco, tenho de escrever o (...)
A temperatura fria expressa-se pela tarde dentro no Tramagal. Suponho que o restante dia nas viagens e andanças traga leitores. O toque da campainha da escola terminou, a saída dos alunos está breve. Vejo a primeira leitora a aproximar-se, as pesquisas das histórias para levar são sempre minuciosas, não vá ficar a leitura incompleta. No início a acção enche-se sempre de promessas, depois a vontade esfuma-se no meio das páginas cheias de palavras que não demonstram qualquer (...)
A pequenada está atenta ao que a professora diz, apontando ao mesmo tempo para o topo da árvore sob a qual estão todas observando as folhas. Daqui a pouco estarão todas no interior da biblioteca ambulante a misturar as histórias. A prepararem a salada composta por enredos diversos,  de palavras e figuras, pessoas, animais, casas, nuvens, estrelas, e muitas mais, envolvidos em camadas coloridas. Depois, quando se forem embora, para a sala de aula, é a vez do viajante das viagens e (...)