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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Dentro da aldeia, próximo da mercearia, vejo um homem a sair desta, apoiando com uma das mãos metade de uma melancia. A maneira delicada a transportar o fruto, pôs-me a imaginar como seria a trazer histórias à biblioteca ambulante. Frutas originárias das ideias dos escritores, de tamanho variável, entre o grande e o pequeno. De formato rectangular, com casca lisa de cores diversas e fina, ou rugosa e grossa. Têm uma polpa muito suculenta, geralmente branca, embora possam surgir na (...)
06 Mai, 2024

Pode consertar ...

Iniciar outra semana nas viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra, numa manhã sem nuvens, cheia de brilho. A fazer conjecturas como será o resto do dia, se os leitores marcarão presença na biblioteca ambulante, se a escolha das palavras, irá entusiasmar as pessoas que lêem na aldeia. Atrair outros a perceberem o quanto é importante estar activo com uma história nas mãos. O vento levantou-se durante a curta viagem para outra aldeia, quer apropriar-se da (...)
Estão duas mulheres a especar a biblioteca ambulante, sem pararem de falarem uma com a outra, não tiram os olhares. Não sei o que estão a escorar na direcção das histórias, quererão estabilizar os leitores na aldeia, criando uma relação com as histórias. Há mais não leitores, do que aqueles a frequentarem a biblioteca ambulante. Não existe equilíbrio, há uma assimetria manifestamente tendenciosa aos que não lêem. Em todas as aldeias da minha terra acontece esta (...)
O vento intromete-se na rua da aldeia, empurra vigorosamente quem se atreve a caminhar por ela adiante, ao encontro de um destino igual aos dos outros dias. A mim, levou-me, juntamente com a Sílvia, a Coimbra, onde a biblioteca ambulante compareceu na passada quinta feira, no 1º Encontro de Leitura em Trânsito. Em Coimbra, a subir, vistosa, captando olhares curiosos à sua passagem, como Leonor, nos versos do poeta, formosa, e não segura, nos meandros, nas ruas estreitas, um (...)
Enquanto houver estrada para andar, pessoas para conquistar, e leitores para lerem, a biblioteca ambulante continuará a estacionar nas aldeias da minha terra. Um início promissor esta manhã aconteceu, ao atravessar uma aldeia para chegar a outra como destino. A saudação com o braço levantado de uma leitora, não há nada mais motivador para o viajante das viagens e andanças, o reconhecimento daqueles que usam e abusam das histórias, à passagem apressada nas suas aldeias da (...)
O sol, não abriu ainda o horizonte, a luz para a aldeia alcançar outros conhecimentos. A biblioteca ambulante, espalha a luz que pode, é o atalho para descobrir outros lugares, e povos. Entrando pela sua porta, é experienciar estímulos diferentes, atravessar uma comprida ponte suspensa. Olhar páginas de horizontes desconhecidos, sentir a agitação do equilíbrio em cima das tábuas, suportes das primeiras escritas. O vento forte bate nos rostos, paralisados na surpresa, das (...)
O denso nevoeiro envolve as aldeias da minha terra a norte do rio Tejo, aquelas, cujos alicerces estão constantemente a banharem-se no rio Zêzere. Do alto das suas escarpas este último rio perde-se no horizonte, seguindo-o, a montante, podemos adivinhar os montes Hermínios com os cumes cheios de neve. A aldeia está adormecida na obscuridade desta atmosfera aquosa, há pouco tempo uma mulher passou próxima da biblioteca ambulante, dirigindo-se à mercearia, destacando umas pantufas (...)
Os raios solares aquecem a aldeia do Souto, vêm-se pessoas na rua, paradas, de mãos nos bolsos, a lagartearem ao sol. Estimulam os ossos mirrados pelo tempo, pelo trabalho na terra, a mesma que um dia os irá acolher. As folhas rodopiam num recanto, talvez seja o lamento  profundo da aldeia. O exalar triste desta e doutras aldeias da minha terra, a escassa população, a idade avançada das pessoas, o isolamento geográfico. Resignaram-se, não têm forças para alterarem o estado das (...)
Envergonhado, o sol, lá apareceu para dissipar as brumas e aquecer um pouco as aldeias da minha terra. Duas mulheres disputam entre si os mexericos importantes que cada uma tinha a revelar, depois de alguns dias afastadas do escasso meio social da aldeia. A chuva, a colheita da azeitona, ocupou grande parte da semana que passou, impediu os aldeões de se concentrarem uns nos outros. A tarde acanhou o sol, o frio nas aldeias do norte faz com que o fumo se escape pelas aberturas das (...)
A aldeia não tem ninguém, o café está fechado, o relógio da torre da igreja faz-se ouvir, a manhã lança-se na direcção do meio-dia. Os leitores fazem gazeta à biblioteca ambulante, a cor cinzenta do céu, a chuva pode desabar a qualquer momento, podem ser motivo para não arriscarem a vinda às histórias. As carrinhas dos padeiros buzinam ao silêncio, como se este precisasse de pão para sobreviver, alimenta-se da ausência, da carência de empregos, de serviços públicos, de (...)