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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Em Bemposta, aldeia de transição para outras aldeias nas viagens e andanças, as mulheres andam a caiar os muros defronte das suas casas. Vai haver festa, com início na próxima quinta feira (Ascensão), até domingo. A limpeza dos muros com cal, situados à beira da estrada, denuncia a proximidade do acontecimento. E o sentimento de satisfação por receberem os forasteiros e familiares que se encontram distantes, não esquecem os dias de alegria na aldeia, regressando sempre, matando (...)
Num dos confins do território das aldeias da minha terra, a biblioteca ambulante com as portas abertas tenta a sua sorte, na eventual presença de algum leitor. Adiante, o limite da região das viagens e andanças impede as histórias de irem mais além. A fronteira é uma linha imaginária, os automóveis aproximam-se oriundos dessa linha, outros dirigem-se na sua direcção. A escrita não tem fronteiras, as palavras disseminam-se como a tinta derramada de um tinteiro, deixando a (...)
A manhã está fria, o sol vai e vem, num jogo de escondidas com as nuvens. Nesta brincadeira de crianças, a chuva é uma concorrente cada vez mais forte e tem possibilidade de ganhar. A água é gelada ao atingir o meu rosto e as mãos, como é possível, uns dias atrás usarmos roupa de verão, e hoje trajarmos agasalhados.  Está tudo virado ao avesso, ou andamos a ler a história ao contrário. Neste tempo intranquilo, não há melhor do que visitar as aldeias da minha terra, não (...)
A neblina esbateu o início das viagens e andanças, como se um lápis a carvão cobrisse levemente a manhã. Não demorou muito ao desenhador, vincar o brilho à obra, tornando-a mais alegre, com cores de fazer arregalar o olhar do bibliotecário da biblioteca ambulante. As cegonhas batem o bico, fazendo saber às outras da presença das histórias. Não sei se é por receio, ou curiosidade, de ficarem para sempre presas nas páginas das histórias, ou quererem fazer parte das mesmas, (...)
30 Jan, 2024

Viajar assim ...

Há sempre uma história no canto, num recanto, ou qualquer lugar onde ninguém experimentou explorar. A acessibilidade não é problema, qualquer leitor pode alcançar histórias em locais pouco frequentados. Foi o que a leitora fez, as suas mãos, habituadas a mexerem na terra, descobriram as sementes que desenvolvem o conhecimento. Tem uma assiduidade regular, a leitura é a sua companhia nos momentos de intranquilidade ou mesmo de alguma inquietação. Fossem assim todos os leitores, (...)
Atenção redobrada na condução da biblioteca ambulante com destino à aldeia da Foz. Esta aldeia é a mais distante nas viagens e andanças, encostada ao alto Alentejo, confinando com extensões de terra não cultivada do Ribatejo, território de animais silvestres, de gado bovino, disperso, apascentando numa condição quase selvagem. De alguma gente habitando estes campos agrestes, em lugarejos, no apoio, na alimentação suplementar, e água aos animais. Não se vê um palmo à (...)
A área plana acompanha a biblioteca ambulante, ladeando a estrada até à aldeia da Foz. Aqui e ali há cortes na fita verdejante, o homem altera, planta, semeia, o filme ganha personagens. Pessoas e animais contribuem juntos para a paisagem não ser entediante, são metros com imprevistos, emoções ou abalos. O avanço da película traz outros actores, diálogos, histórias de visões, o sobrenatural é uma realidade em muitos lugares. Não há vergonha no quotidiano, mostram o (...)
O rebanho, com as ovelhas colocadas umas seguidas às outras, acompanha o trilho a uma clareira rodeada por grandes sobreiros. As primeiras a chegarem estão com o focinho fixado na erva molhada que  ocupa o espaço junto à estrada que dirige a biblioteca ambulante na direcção da aldeia da Foz. Observei a sofreguidão dos animais a devastarem a  pastagem,  uma página enorme onde as letras sumiam umas atrás das outras. Tal não era a voracidade empregada na leitura, (...)
Entrei no café, a penumbra envolvia o espaço, o preço da luz não está para brincadeiras, ainda por cima, só para iluminar as moscas. Estaquei na entrada, afinal, desta vez estavam uns cinco, sentados, em pé, silenciados pela chuva a cair na rua, olhavam para as garrafas de cerveja vazias. Agitei o momento, colocando jornais numa das mesas, sirvam-se, bebam as letras até ficarem ébrios, pensei eu, enquanto me dirigia ao balcão para pedir um café cheio. Percebi que os olhares (...)
  O pequeno campo de melancias, onde algumas sobressaem pelo tamanho não passa despercebido ao viajante das viagens e andanças. É cobiçado pelo seu olhar sedento, pela vontade de uma fatia fresca do fruto, imóvel no meio das plantas. Nas aldeias alternando a continuidade das estruturas em alvenaria,  deparo sempre com pequenas parcelas de terra cultivada a envolver, defronte a áreas habitacionais, hortas improvisadas. Com o tempo ganharam definitivamente os espaços ocupados por (...)