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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

No início a arquitectura moderna está presente nas casas na aldeia dos Casais de Revelhos. Gente nova, outros mais velhos, optaram por reavivarem a vida, substituindo a urbanidade por um local mais tranquilo. Depois alcançamos as outras, ajeitadas pela arte da construção popular, as mais antigas. Cândidas, coladas umas às outras pela rua acima até ao lugar do costume, onde as palavras das histórias se recreiam no baloiço e no escorrega. No campo de futebol de dimensões (...)
É provável que estejamos no outono novamente, a aparência da manhã, como aquelas que se iniciam no mês de Setembro, até aos últimos dias do mês de Dezembro, vestindo-se de modo que pareça a estação do ano entre o verão e o inverno. A diferença está na duração dos dias, aumentam em vez de diminuírem. As viagens e andanças ficam fortalecidas com a temperatura amena que se faz sentir. Os leitores saem de casa, chegam, sem reclamarem por tudo e por nada. De sorriso aberto (...)
O sol vai alto, o calor aperta esta tarde, nas viagens e andanças. O cacarejar das galinhas sobrepõe-se, no lugar onde a biblioteca ambulante está estacionada. Não se vê ninguém, estão a dormir a sesta, ou no café, um costume, depois do almoço, também nas aldeias. A manhã não correu mal, a visita de leitores tornou o dia melhor, o vínculo de uma leitora com as histórias da biblioteca ambulante, foi a cereja no topo da manhã. Há dias bons, há dias maus, mas, olhando para (...)
O perfume das recentes flores invade o lugar onde a biblioteca ambulante aguarda os leitores, em Casais de Revelhos. O chilrear dos pássaros absorve todos os outros sons, os ecossistemas que cercam e coabitam na aldeia estão numa grande exaltação. Capaz de esquecer a pouca distância do casario, a vida animal continua alheia aos aldeões, a manterem diariamente as hortas em condições. Para que os legumes, as hortaliças cresçam sem ervas invasoras a importunar. Ao mesmo tempo, (...)
Resgatar memórias de há 50 anos atrás, a guerra colonial, amizade, reconhecimento. O fim da carnificina humana, a independência das colónias, os olheiros, informadores misturados na população, captando os diálogos, as ideias e acções que não estivessem em concordância na ideologia do regime de então. Quem fosse atrevido nas palavras, quase sempre era abordado para comparecer no posto da guarda mais próximo. As mulheres não votavam, somente os homens influentes das (...)
O nevoeiro é matreiro, num instante esconde, noutro descobre, automóveis, a transitarem à frente da biblioteca ambulante, lugares, a espreitarem quem passa na estrada. Na Associação Comunitária de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas, alguns, que desfrutam do apoio da instituição, estão ausentes da vida, ou no caminho em direcção ao túnel, que lhes tirará a luz para sempre, têm momentos onde conseguem romper a neblina. Surpreendem, como se fosse ontem, as histórias estão (...)
O frio chegou primeiro, a abrir o caminho um aguaceiro gelado caiu nas aldeias da minha terra. Depois, o sol voltou, mas já não é o mesmo, o escasso calor desapareceu no ar gélido da tarde. A leitura por aqui também está longe do calor habitual, os leitores das Mouriscas andam desaparecidos há algum tempo. Sei que a aldeia cada vez tem mais estrangeiros a comprarem pequenas propriedades a instalarem-se definitivamente, são europeus, recentemente juntaram-se-lhes uns (...)
O sol está receoso, ainda assim, há quem encontre uma débil esperança que o mesmo substitua o agasalho. Aquele abafo necessário às histórias, as mãos manuseando páginas, selando uma de cada vez, indicando o destino, guiando a leitura até ao final. A casa onde as palavras se reúnem após um dia laborioso, esgotadas, com a facilidade que surgem no papel, na indecisão, no desaparecimento inesperado, no renascer. A vida das palavras é dura,  até se fixarem (...)
Voltamos a ler em voz alta,  foi como se estivéssemos ao redor de uma fogueira. A chama, ou a mistura de palavras andando de mão em mão, aqueceu a história  destas mulheres, trouxe lentamente outras palavras, ancoradas na alma de cada uma. " Gosto de gostar, escrito pela Helena Sacadura Cabral ", moveu capítulos há muito tempo vividos, começaram novamente a viajarem nas marés do Natal, da infância, do presente, num oceano que não esqueceram. Os ventos levaram-nas para (...)
Um gato afastou-se rapidamente, quando avistou a biblioteca ambulante a entrar no espaço do estacionamento habitual em Casais de Revelhos. Fiquei desapontado por o ver tão apressado a deixar o sítio onde as histórias terminam a primeira viagem da tarde. Não quero acreditar que o  gato saiu disparado para avisar os leitores da presença das histórias na aldeia. Não lhe comprei botas, nem sequer um saco, só faltava agora o gato pôr-se por aí a caçar coelhos para ir aliciar os (...)