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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Na aldeia do Pego o homem da bicicleta voltou ao largo da escola, do fontanário que deita palavras, sempre que se abre a torneira. As nuvens também voltaram, são uma grande unidade de forças aéreas, constituídas por um número variável de obras escritas, compostas por capítulos, frases independentes, além de curtas palavras de combate ao solo. Deixaram poucas clareiras azuis abertas, talvez seja uma estratégia para iludir, dar esperança, e oportunidade aos leitores para se (...)
No recreio da escola as crianças correm atrás umas das outras, querendo agarrarem quem segue adiante, ou alcançarem um futuro. Os sons agudos ocupam o pequeno largo onde está a biblioteca ambulante, esvaziam a atenção e o pensamento, a organização da sala de aula. De um momento para o outro, toda esta agitação foge do largo, o lugar do recreio fica vazio, a porta da escola fecha-se. Regressaram ao contacto das matérias, ao que é objecto de conhecimento e estudo. O fontanário (...)
Na pastagem a disputa pela erva macia está ao rubro, com os mais novos a não largarem a sombra das progenitoras. Os que estão de pança cheia, estão deitados a aproveitarem os raios do sol, indiferentes ao que se passa ao redor. Enquanto as nuvens não impedem os traços do sol, acertarem no lugar onde os animais pastam. Na rua a conversa está ao rubro defronte do café, vozes roucas, competem pela sua vez de falarem, ao mesmo tempo só gera confusão e ruído. O cheiro intenso, (...)
Andam inquietos, o mundo está complicado, espiam quem entra no café, um copo oferecido é bem melhor do que largar uns euros. Não está fácil, o dinheiro não estica, o vício fica sempre em primeiro lugar, barbas por escanhoarem, vagabundos assalariados, de um sistema cego. O vento intromete-se nas viagens e andanças, nos leitores da biblioteca ambulante, as histórias chegam apertadas pelas mãos que as trazem, as palavras presas não servem para nada, leram-nas, gostaram tanto e (...)
Na aldeia da Concavada o ruído ensurdecedor das roçadoras a eliminarem as ervas nos passeios destaca-se de todos os outros. A temperatura primaveril está arrojada nesta tarde de inverno, nas viagens e andanças com letras. Um casaco qualquer vestido, transforma-se num pesadelo infernal. Será terrível para as árvores de fruto, se, com este impulso meteorológico, iniciarem uma floração precoce. Sempre com a previsibilidade da descida da temperatura, no mês em que nos encontramos, (...)
A manhã, sobe degrau a degrau, no alcance do seu ponto mais elevado, o inacreditável é encontrar a temperatura no sentido contrário, descendo, em direcção à aldeia do Pego. Os meus pés foram dar uma volta pela aldeia, deixei de os sentir, ou é do frio, ou andam por aí nas ruas a chamarem os pegachos há biblioteca ambulante. Um turbilhão de interrogações surge sempre que a biblioteca ambulante aqui se demora, numa aldeia onde nasceram, habitam, um presidente da Assembleia (...)
O dia não tem tempero, nem é ausência de sal, falta-lhe alegria, não tem leitores para fortalecer o sabor. Fico com o tempo para explorar as receitas da escrita, bem ou mal, cozinho com vontade, procuro aromatizar os pratos, vou às margens dos ribeiros encontrar as ervas e folhas selvagens, as mesmas que os antepassados aproveitavam nas suas escritas. A mesma, na qual a ninfa se transformou na sua árvore, unida a outras num círculo, distinguiram personagens da história.  O dia (...)
O campo pelas aldeias da minha terra é uma sinfonia de cores, a terra castanha, recentemente lavrada, o prado verde, a caixa de cores diversas presas aos ramos, ajudam a escolha do maestro na composição. Em todo o lado a toada harmoniosa auxiliada pelo coro das aves se ouve, um concerto que interrompe o silêncio e atrasa a solidão enquanto a noite não chega. Depois, na ausência de qualquer ruído, são as folhas de papel, a passarem lentamente, é a história a avançar. Os (...)
Subitamente o silêncio foi cortado pelas vozes estridentes das crianças a brincarem no pátio da escola. Formando pequenos grupos, a correrem umas com as outras, a disputarem lugares de relevo. Não sei o nome delas, podem ser o António, a Beatriz, o Carlos, a Deolinda, o Eduardo, a Fernanda, o Gonçalo, a Helena, o Isidro, a Joana, e tantos outros nomes. Crianças de pouca idade, aprendendo as primeiras letras, a lerem frases, textos completos, a construirem o futuro. O silêncio (...)
No pátio da escola os gritos das crianças ecoam no largo e nas ruas confinantes. As palavras são desconhecidas ainda para alguns destes, ali a correrem atrás uns dos outros, aprisionados no tempo, fogem. Só agora começaram a conhecer as letras, quando acordarem das brincadeiras já saberão entrelaçar e a compreender o alfabeto. Da escola alcançarão as palavras coladas na biblioteca ambulante, depois a curiosidade impulsionará a vontade para se acercarem das histórias. As (...)