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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

24.Jan.23

O vento glacial ...

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O tempo ingrato empurra-me da cama para enfrentar a manhã gelada, estão 0º graus Celcius no momento de partir para as viagens e andanças. Pensarão como é possível haver leitores aguardando a biblioteca ambulante, com vontade de renovar a leitura, encontrar histórias novas, estar com o viajante das viagens e andanças. Isso acontece, entram enregelados, uns com a cabeça enfiada no capuz dos casacos, cachecóis a proteger o pescoço e outros agasalhos que não deixam entrar o frio. (...)
05.Jan.23

O campo verde ...

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A manhã aproxima-se do fim, está frio, a aragem aproxima-se repentinamente e afasta-se no mesmo instante, joga ao toca e foge. O sol está impotente perante este sopro dissimulado, aguardo um leitor que anda metido na horta, nunca mais se lembrou que a biblioteca ambulante tem presença marcada na sua aldeia. A conservação destas parcelas de terreno afasta-os da evidência, andam ali um bocado a falar com as plantas, acarinhando-as, ralham com as ervas invasoras, com as lagartas que (...)
16.Dez.22

Escrita ruidosa ...

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Há vida na charneca, a terra traz à tona, água, um tinteiro cheio, emergindo, escorrendo por linhas esquecidas pela  escassez de letras. Voltar a reescrever nas páginas ressequidas foi rápido a partir do momento em que a terra aparou e sugou esta abundância, não há mata-borrão que consiga estagnar estas palavras. As letras soltaram-se, uniram-se apalavrando a charneca e as suas gentes, a água não para de correr, a preencher cadernos em branco, poços de memórias, de segredos. (...)
25.Nov.22

Sai como a linha a deixar o buraco da...

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O nevoeiro é um intruso silencioso a passar nos lugares estreitos da charneca, uma serpente que alastra pelo vale adiante. A biblioteca ambulante sai como a linha a deixar o buraco da agulha  deste tempo vagabundo, atingindo a aldeia no topo do terreno onde crescem plantas rasteiras. Ao sol na rua principal os velhos sentados nas soleiras das portas, aquecem os ossos carcomidos pelo peso da idade,  o corpo encurvado, consumidos, parecem cartão dobrado, preparado para ser metido nos (...)
08.Nov.22

A chuva tamborila ...

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A chuva tamborila nos vidros da biblioteca ambulante, desde de manhã as nuvens avançam como um exército invasor, advinhava mais cedo ou mais tarde o bloqueio total. Agora esvaziam os ventres cheios de água, trazem vida, alimentam as nascentes. Nas estradas que me levam juntamente com as histórias, ao transpormos as ribeiras somos recebidos com alegria pelas águas que deslizam. Há força suficiente para rasgarem as planícies deitadas nos vales, criarem carreiras noutros sentidos, (...)
19.Out.22

São escritas a lápis de água ...

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A rua está abandonada, ao longe, um, dois, chapéus de chuva, não vão sozinhos, alguém os segura, a chuva que se manifesta de uma forma excessiva não permite grande visibilidade. Podia ser uma vassoura agigantada, o vento empurra, e a chuva varre tudo à frente. As histórias estão órfãs dos leitores, não arriscam aproximarem-se da biblioteca ambulante, esta não se deixa abater com a torrente de água. As palavras hoje são escritas a lápis de água, no vale que divide a (...)
30.Set.22

Largo o personagem ...

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Metida no vale a planície verde expressa liberdade, limpa a angústia da incapacidade de fugir a um mundo cada vez mais desventuroso. Ao virar da curva a estrada desemboca num espaço sem fim, luminoso, o tecido que o cobre é recente, a cooperação entre a terra e as primeiras orvalhadas teceram uma obra prima. A vontade é ficar aqui para sempre dentro desta ilusão, no país das maravilhas, correr com os coelhos e as lebres, mandriar ao sol com as lagartas, permanecer em segredo com (...)
13.Set.22

A claridade trouxe leitores...

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A chuva varre tudo por onde passa, na estrada que leva as histórias, a água escorre da vala que a margeia inundando-a. Todo o cuidado é pouco, na condução da biblioteca ambulante em direcção às aldeias fixadas no itinerário. O céu abarrotado de nuvens escuras converte o dia em noite, as luzes brancas e amarelas dos faróis dos automóveis projectam-se ao longe. Podiam ser fogaréus numa procissão, marchando devagar, acompanhando o padre e fiéis. Na aldeia a claridade trouxe (...)
05.Ago.22

Afinal um pouco mais ...

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A aldeia está a desaparecer, foi esta a primeira frase que a leitora disse ao entrar na biblioteca ambulante. Efectivamente é isto que se passa nesta e noutras onde as histórias permanecem aguardando pelos leitores. Aldeias pequenas, outras maiores, lugares plantados no meio destas, onde as pessoas deixam de ser vistas, originam  aos que ainda cá andam a sentenciarem a própria aldeia onde vivem. A qualidade existe para quem opte viver nestes locais determinados na charneca ou (...)
30.Jun.22

Só o tempo passa pelas suas aberturas...

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O largo está ermo, ouço os pássaros,  mas não consigo vislumbrar vivalma. O vento também se faz ouvir no alcatrão quente, um painel para os traços grossos, não passam de sombras dos fios que nos permitem comunicar, como o sombreado dos prédios que ladeiam um dos lados da rua que desemboca na área onde cada vez mais só o ar a ocupa. A chaminé quieta sobre um telhado desgastado, onde só o tempo passa pelas suas aberturas, parece querer dizer que a estrutura onde está (...)