Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

  O vento seca a água da chuva que caiu sobre a estrada nas viagens e andanças, os campos ensopados, a roupa no estendal. O vento é uma máquina de secar memórias, apaga tudo à sua frente, é uma doença, uma borracha não faria melhor. O vento não me deixa voltar ao passado, empurra-me para o futuro. Vou na biblioteca ambulante, com aqueles que presenciaram acontecimentos, lembranças, guardadas para sempre, na escrita, nos livros, cujas páginas amarelecidas o vento não soprou. (...)
A charneca canta e chora de alegria, as plantas selvagens molham as raízes nas pequenas correntes de água, que continuam à superfície do solo. A biblioteca ambulante, acelera nas estradas estreitas, escoltadas por sobreiros e carvalhos, as viagens e andanças prosseguem outra semana pelas aldeias da minha terra. No largo do Café Areias, com vista privilegiada, para a charneca abastada, para uma leitora da biblioteca ambulante, sentada, numa cadeira, na varanda da sua casa, protegida (...)
A chuva da última noite, apressou as águas das ribeiras e outras linhas invisíveis no tempo quente, deste líquido incolor. Correm sem censura, as pedras no leito, as partes lenhosas desprendidas pela ação do vento nas árvores, deixaram de serem obstáculos. A manifestação estendeu-se à charneca, encontrei-a a chorar de alegria, as lágrimas escorriam pelos desníveis, até às bermas que ladeiam a estrada. O destino de tanta alegria, vai afogar-se no rio ibérico, que divide as (...)
As últimas viagens e andanças deste ano acontecem hoje, aguentando o frio matinal, a gozar a tarde soalheira nas aldeias da minha terra. A cidade fica sempre para trás, quando o dia é ainda um menino, no fim deste, velho e cansado, homem feito, a cidade está sempre de braços abertos a receber a biblioteca ambulante. Repositório das histórias das aldeias, do mundo. Abrantes, nunca virou as costas às suas bibliotecas, protectora das oralidades, dos escrevedores, impulsionadora, a (...)
O dealbar do primeiro dia da semana nas viagens e andanças trouxe temperaturas amenas à charneca, e às aldeias da minha terra. Voltei a ver as pessoas nas ruas destas pequenas povoações, a caminharem pelo campo, exercitando o corpo cada vez mais preguiçoso à medida da passagem dos anos. Continuam a insistirem em dar pancadas fortes na tranquilidade de uma oliveira, símbolo de sabedoria, de paz, de glória e abundância na Antiguidade. Já estou a ver as folhas serem sacudidas na (...)
A chuva voltou a desabar, os tambores do céu ouvem-se a ribombar ao longe, a festa celestial desfaz-se em lágrimas. Alegria no céu e na terra, nas planícies e na charneca, pelas aldeias da minha terra, as ervas a despontarem, os ribeiros a engordarem, são as letras a preencherem uma folha em branco, há muito desabituada da tinta a escorrer pela ponta do aparo. Ambas alimentarão os animais, os leitores, satisfação nas viagens e andanças. O sol volta a brilhar, no alpendre, no (...)
O frescor matinal entusiasmou os habitantes da aldeia de S. Facundo, a leitora habitual, num abrir e fechar de olhos renovou as histórias, o viajante das viagens e andanças escreve com agilidade a sua crónica. Querendo antecipar-se ao calor do meio-dia, os rostos sorridentes passam perto da biblioteca ambulante, mexendo as bocas, saudando o bibliotecário. Já se vindima na aldeia da Ribeira do Fernando, sei isto pela mulher de um leitor, pelo telefone disse-me que o Manuel não pode (...)
O vento leva tudo à frente quando atinge o crédito do sol, aquecendo demasiadamente as aldeias da minha terra por estes dias de uma forma mais acelerada. O ar quente vagueando há demasiado na charneca está subindo, possibilitando a intromissão do seu gémeo dizigótico, o ar frio. Com este fenómeno meteorológico os cabelos do Manuel não paravam de um lado para o outro no topo da cabeça, uma das mãos teimava em estabilizar os parcos pelos que lhe restam sem sucesso. A outra (...)
Têm sido uns dias difíceis a estabilizar leituras, estar ao mesmo tempo nos lugares planejados e nas aldeias onde faltou a leitura no tempo certo. Para trás ficaram aldeias sem fim, pessoas felizes, por finalmente  conseguirem as histórias tão desejadas. Não foram oitenta dias à volta do mundo, mas três dias (ainda não terminaram) a circular pelas aldeias da minha terra numa inquietação nunca antes interpretada pelo viajante das viagens e andanças. Júlio Verne não teria (...)
Há música na Bia, há festa na aldeia, as palavras foram as bailarinas no Centro Social de S. Facundo. O acordeão soltou as melodias, e estas encheram o salão, bailaram com sorrisos de encherem a boca. Não houve leilão, não se venderam e arremataram palavras, como faziam noutros tempos os rapazes. "Compravam" o seu par, as raparigas bonitas com quem queriam dançar. Quem oferecia o maior lance, dançava com a rapariga desejada. Ora quantos escudos seriam necessários para manter o (...)