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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Estão duas mulheres a especar a biblioteca ambulante, sem pararem de falarem uma com a outra, não tiram os olhares. Não sei o que estão a escorar na direcção das histórias, quererão estabilizar os leitores na aldeia, criando uma relação com as histórias. Há mais não leitores, do que aqueles a frequentarem a biblioteca ambulante. Não existe equilíbrio, há uma assimetria manifestamente tendenciosa aos que não lêem. Em todas as aldeias da minha terra acontece esta (...)
O vento intromete-se na rua da aldeia, empurra vigorosamente quem se atreve a caminhar por ela adiante, ao encontro de um destino igual aos dos outros dias. A mim, levou-me, juntamente com a Sílvia, a Coimbra, onde a biblioteca ambulante compareceu na passada quinta feira, no 1º Encontro de Leitura em Trânsito. Em Coimbra, a subir, vistosa, captando olhares curiosos à sua passagem, como Leonor, nos versos do poeta, formosa, e não segura, nos meandros, nas ruas estreitas, um (...)
Enquanto houver estrada para andar, pessoas para conquistar, e leitores para lerem, a biblioteca ambulante continuará a estacionar nas aldeias da minha terra. Um início promissor esta manhã aconteceu, ao atravessar uma aldeia para chegar a outra como destino. A saudação com o braço levantado de uma leitora, não há nada mais motivador para o viajante das viagens e andanças, o reconhecimento daqueles que usam e abusam das histórias, à passagem apressada nas suas aldeias da (...)
O sol, não abriu ainda o horizonte, a luz para a aldeia alcançar outros conhecimentos. A biblioteca ambulante, espalha a luz que pode, é o atalho para descobrir outros lugares, e povos. Entrando pela sua porta, é experienciar estímulos diferentes, atravessar uma comprida ponte suspensa. Olhar páginas de horizontes desconhecidos, sentir a agitação do equilíbrio em cima das tábuas, suportes das primeiras escritas. O vento forte bate nos rostos, paralisados na surpresa, das (...)
O denso nevoeiro envolve as aldeias da minha terra a norte do rio Tejo, aquelas, cujos alicerces estão constantemente a banharem-se no rio Zêzere. Do alto das suas escarpas este último rio perde-se no horizonte, seguindo-o, a montante, podemos adivinhar os montes Hermínios com os cumes cheios de neve. A aldeia está adormecida na obscuridade desta atmosfera aquosa, há pouco tempo uma mulher passou próxima da biblioteca ambulante, dirigindo-se à mercearia, destacando umas pantufas (...)
Os raios solares aquecem a aldeia do Souto, vêm-se pessoas na rua, paradas, de mãos nos bolsos, a lagartearem ao sol. Estimulam os ossos mirrados pelo tempo, pelo trabalho na terra, a mesma que um dia os irá acolher. As folhas rodopiam num recanto, talvez seja o lamento  profundo da aldeia. O exalar triste desta e doutras aldeias da minha terra, a escassa população, a idade avançada das pessoas, o isolamento geográfico. Resignaram-se, não têm forças para alterarem o estado das (...)
Envergonhado, o sol, lá apareceu para dissipar as brumas e aquecer um pouco as aldeias da minha terra. Duas mulheres disputam entre si os mexericos importantes que cada uma tinha a revelar, depois de alguns dias afastadas do escasso meio social da aldeia. A chuva, a colheita da azeitona, ocupou grande parte da semana que passou, impediu os aldeões de se concentrarem uns nos outros. A tarde acanhou o sol, o frio nas aldeias do norte faz com que o fumo se escape pelas aberturas das (...)
A aldeia não tem ninguém, o café está fechado, o relógio da torre da igreja faz-se ouvir, a manhã lança-se na direcção do meio-dia. Os leitores fazem gazeta à biblioteca ambulante, a cor cinzenta do céu, a chuva pode desabar a qualquer momento, podem ser motivo para não arriscarem a vinda às histórias. As carrinhas dos padeiros buzinam ao silêncio, como se este precisasse de pão para sobreviver, alimenta-se da ausência, da carência de empregos, de serviços públicos, de (...)
A mulher velha caminha pela rua, o vento sopra no que resta dos ornamentos da festa de verão, criando a única sonoridade na aldeia. É evidente que não se dirige na direcção da biblioteca ambulante, escapa-se por outra rua, com as histórias na sua frente, não tem curiosidade de as conhecer, ou não as viu. A horta, puxa-lhe os pensamentos para o que resta dos frutos presos nos tomateiros, os cachos das uvas por colher, ou a perda de alguns destes frutos, derivado da chuva intensa (...)
Os automóveis ocupam os lugares destinados ao parqueamento no centro da aldeia, a biblioteca ambulante não teve outra solução do que improvisar um espaço para permanecer no Souto. Em pleno mês de Agosto, os filhos da terra regressaram para gozarem alguns dias das férias. Bronzeados pelo sol das praias onde se mantiveram nas primeiras semanas, passeiam-se na rua mais importante da aldeia.  Os gigantes chapéus na esplanada do café,  protegem-nos do sol atrevido enquanto (...)