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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

20 Fev, 2024

Onde foram elas ...

A renovação da casa, no largo da aldeia, no Tubaral, avança paulatinamente. O som do berbequim a perfurar a solidão, a explorar a história das paredes de outrora, tentando saber as histórias. As memórias enraizadas, nas paredes da casa, do martelo a bater no silêncio, dão energia ao largo. A betoneira a girar é a roda da sorte, da densidade populacional da aldeia. A sorte está nas palavras consoantes, seleccionadas,  «casa, janela, ninho» e numa vogal, «a». Após a (...)
  A aldeia tem vida, os cães ladram, a chiadeira do arame no estendal da roupa faz-se ouvir ao deslizar na roldana, não sei onde, é perto, numa destas casas olhando o vazio no largo. Há pessoas, não se deixam ver, só a padeira as atrai para o largo. Uma vez, ou outra, há uma força invisível que traz estas pessoas à biblioteca ambulante, o pão em primeiro lugar, a coincidência boa é estarem no momento certo no largo, as histórias. A semelhança, mantêm-se na aldeia onde (...)
Está um frio de fazer levantar os pelos do corpo, o ar não está para brincadeiras, gela tudo. A biblioteca ambulante na aldeia do Tubaral, não espera novidades esta manhã, os leitores presos ao lume crepitante nas lareiras, não levantarão os traseiros dos assentos, aquecidos pelo calor do fogo. Há, sempre todos os dias nas viagens e andanças, qualquer situação a impedir, este ou aquele leitor de se deslocarem à biblioteca ambulante. As nabiças na horta estão a pedir a (...)
O reflexo das folhas douradas que caem, ornamenta a tarde a preparar-se para mergulhar no reino da escuridão. O espólio de algumas destas obras da natureza, aguardam  a vez para se sacrificarem na fogueira de Natal. O fogo irá consumir vorazmente a lenha amontoada nos próximos dias, ao redor deste, os leitores do tempo, na aldeia, juntam-se para comerem e beberem. Momentos de escutarem com atenção os murmúrios do fogo, estão seduzidos pelas danças das chamas.  O calor (...)
O nevoeiro escapa-se da charneca, está em todo o lado, envolve a biblioteca ambulante a estrada, as aldeias. As histórias seguem atrás, aninhadas umas nas outras para não terem frio. O ar quente sai, aquece os pés do viajante das viagens e andanças, incapaz de alcançar as prateleiras, onde os personagens das histórias tiritam por causa do frio, inquietos, intrometem-se numas e noutras. Não param de saltar páginas, a correrem as linhas de cima para baixo, de baixo para cima, (...)
A chuva afoga a esperança no aparecimento de leitores, dilui o sangue na vida da escrita. Afugenta as pessoas, mascara os pássaros entre a folhagem espessa, inunda a tarde das viagens e andanças. As palavras não se afundam, são bóias, salvam vidas, inimigas da solidão, e companheiras do silêncio. A chuva a cair em cima da aldeia, bem podiam ser as letras asfixiando tudo e todos. Quem não souber nadar fica sábio, quem sobreviveu, permanecerá num deserto carecido de  emoções.
O panorama matinal antevê outro dia de chuva, montanhas de nuvens cercam o céu azul sob as aldeias da minha terra. Na margem sul do rio, um tractor com a sua alfaia a reboque reescreve a terra, narra a história do homem dependente do rio, que a submergiu vezes sem conta. A rebeldia da terra negra, arrasta a máquina agrícola de um lado para o outro, até o caderno estar com as linhas feitas. A escrita vem depois, antigamente atiravam-se com a mão à terra as letras, agora é o mesmo (...)
08 Set, 2023

Lambem os dedos ...

O primeiro olhar pelo jornal é igual ao que fazemos perante uma vitrine repleta de bolos. Perdemo-nos na variedade de palavras, as massas, as texturas, os recheios, um conjunto de cores e sabores para lermos em casa, no sofá, seguir as frases umas a seguir às outras. Ler é importante, estar informado ainda mais. A assiduidade da biblioteca ambulante nas aldeias, promove, sem os leitores notarem, hábitos de leitura. Os gestos, a paixão de olharem para as palavras, viajarem pelas (...)
Hoje o dia promete temperaturas elevadas nas aldeias da minha terra, não é novidade por aqui o intenso calor. A boa nova foi uma leitora vir devolver a história lida, e levar outra, um bom sinal para o início de semana de viagens e andanças. O silêncio no largo é interrompido pelo som das pás, dos martelos, da betoneira misturando a solidão e o isolamento. Serão posteriormente fixados nos blocos de argila para serem eliminados pela tinta que cobrirá de novo as paredes de uma (...)
No largo do coreto as novidades escasseiam, exceptuando o avanço do tempo sem refrear a continuidade da canícula. O relógio da igreja faz-se ouvir anunciando a meia hora em falta até às dezasseis horas da tarde de mais um dia de viagens e andanças. Aqui os leitores são como as novidades, vêm quando lhes apetece e não pela presença da biblioteca ambulante assiduamente na aldeia. Apesar dos intervalos prologados, as histórias saem, muitas vezes estranhando algum abandono em cima (...)