Foi muito longo o tempo que o sol demorou a sair da incerteza em que estava mergulhado. As aldeias da minha terra, encantadas, misteriosas, quando as brumas assentam no território onde a biblioteca ambulante é rainha. Uma lutadora incansável, a combater a iliteracia, a solidão, são várias as lutas diárias, onde se ganha e perde. Conquistou leitores, sem desistir, continua, adaptando as histórias ao quotidiano das pessoas das aldeias. Na sua corte todos são bem vindos, ouvir os (...)
Outro dia soalheiro ajudando aqueles que desempenham os trabalhos no campo. Cortam-se troncos, ramos espessos, transformando-os em lascas de lenha. Utilizadas na lareira, aquecendo os lares nos dias frios do inverno, mesmo nos mais agrestes que o outono também traz. Nestes dias o fogo é rei, dá ordens para que o alimentem, mantendo assim a festa, as faúlhas dançando, ao som, dos ritmos dos estalidos da lenha. O silêncio é quebrado pelo barulho da combustão, o clarão é uma (...)
Não há velhos sentados nos bancos de pedra, no largo da aldeia. O miar do gato não é pacífico, saí-lhe da parte mais profunda do ventre. Faz saber no largo, a insatisfação pela insensibilidade da ausência de calor. Na aldeia o frio sobrepõe-se cada vez mais ao entusiasmo, neste lugar. A impaciência do gato é audível na biblioteca ambulante, perturba as personagens das histórias. Não há leitores para os ler, o ar frio está vivo e forte na aldeia. A aldeia é um assento (...)
Foram alguns meses a transitar na estrada a levar a biblioteca ambulante, às aldeias das Bicas e Vale de Açor, a passar por cima de pequenas partes, desta, em muito mau estado. Finalmente, hoje foi com satisfação que a biblioteca ambulante, a transpôs, sem estar ainda concluída a intervenção necessária, mas, a progredir para contentamento dos fregueses, e do viajante das viagens e andanças. Não fosse as pessoas destas aldeias a reclamarem, as deformações estariam por reparar, (...)
Sem luz, os leitores na aldeia continuam a entrar na biblioteca ambulante, não é complicado viver sem energia artificial. Na horta, há legumes e hortaliça, têm galinhas, ovos, e coelhos, no galinheiro, na coelheira, poços abastecidos pelas rede de canais subterrâneos, alimentados pela infiltração da água das recentes chuvas. Lêem sob a iluminação dos antigos candeeiros a petróleo, ou recorrem a velas de cera, caso a energia eléctrica não tenha sido reposta. Afinal, as (...)
A neblina actuou como um mata-borrão ao início da manhã, absorvendo a abundância dos desânimos da noite. A manhã despiu o pijama estampado por nuvens, deixando o sol abraçar a nudez insegura perante esta situação inesperada. A aldeia está despojada da roupa que a aquece, sem pessoas, e leitores, onde andarão as gentes da aldeia. Só os pássaros se fazem ouvir com o som esfuziante da cantoria. Voam de um lado para o outro, ao redor da biblioteca ambulante, procuram letras (...)
A chuva apareceu na aldeia das Bicas, no período da tarde, envergonhada no início, tornando-se imperturbável no resto das viagens e andanças. Uma leitora aproximou-se, abri o vidro, não me deixou falar, informando a causa da ausência das histórias para devolver. Não sabia da presença da biblioteca ambulante na sua aldeia, hoje, como irá acontecer com outros. A falta de comparência das histórias, a inexistência do horário, e dias da paragem, da biblioteca ambulante nas (...)
Os prados verdes são as folhas onde os homens nas aldeias escrevem as páginas das suas vidas. Obras literárias que alimentam a imaginação daqueles que nunca saíram das grandes cidades. Lêem, saboreando com curiosidade cada palavra nas páginas, escritas pelos homens das aldeias da minha terra, nas folhas. Sentem a liberdade que não têm na cidade, sempre que as apreciam. Soltam-se os odores, fumegam no espaço das refeições, alegres, tristes, solitários, oriundos da leitura, da (...)
Na aldeia das Bicas, o sol rompeu com o cinzentismo dominante desde que o dia amanheceu. Uma revolução celestial que terminou de vez, na aldeia, com a opressiva pluviosidade. A biblioteca ambulante tem as suas portas abertas de par em par, sem condenações ou repressão social. Todos podem aproximarem-se, entrarem, sem se molharem no exercício livre da leitura. A primeira metade do dia foi bastante opressiva, a chuva não permitiu quaisquer ligeirezas, naqueles que gostam de ler. Não (...)
Manhã tranquila com temperatura amena, sem nada a acontecer na aldeia do Vale de Açor. Vozes distantes chegam à biblioteca ambulante, os sons domésticos intervêm de vez em quando, superando os primeiros. A serenidade está em todo o lado, no temperamento dos homens que vigiam a floresta, nos que trabalham no corte da lenha, naqueles que conduzem veículos pesados a transportar madeira. Até agora, o silêncio consegue ouvir-se melhor que os outros, a sua presença é permanente na (...)