Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Entrei na aldeia do Vale das Mós, pelo acesso orientado a norte. A rua mais importante, rasga a aldeia do princípio ao fim, nela estão alojados os cafés, a padaria e pouco mais. Leva a biblioteca ambulante ao encontro dos leitores, é uma direcção para outros destinos. As aldeias da minha terra são os prefácios da cidade, têm poucas palavras, são lugares de passagem, lidos em pouco tempo, explicam as motivações das pessoas para as abandonarem. Dão os pormenores, como os (...)
O Dia Mundial do Livro, não podia ter começado da melhor maneira, com a vinculação de uma instituição de apoio à terceira idade na biblioteca ambulante. O incitamento à leitura, através da mediação, em linha recta com o leitor. Ler para quem foi leitor, para quem nunca foi leitor, ou para quem não sabe ler, é o habitual nestas instituições de acolhimento diurno ou permanente. Entusiasmados, continuamos a ir atrás das histórias deles, há sempre algo a surgir da gaveta (...)
As esplanadas dos dois cafés do largo, no Cabrito, estão cheias de pessoas. Bebem café, fumam cigarros atrás uns dos outros, falam entre eles. Há quem passe pelas brasas, sentado de um modo estranho, isolado, sonhando em mais lugares do que este largo, para ir através do tempo. Se abrisse os olhos, na sua frente está o mundo para descobrir, nas histórias, nas palavras daqueles que as escreveram. Na biblioteca ambulante, transportando-as até aos outros largos, noutras ruas (...)
Os pequenos leitores olham as páginas do futuro, o largo, onde o inverno se despede chorando sem parar. Sonham com os ovos da Páscoa, com o Dia do Pai. Descrevem a prenda feita na escola, arrumadas numa sala, aguardando o dia para surpreenderem o pai. A brincadeira ocupava-os a manhã toda, a chegada da biblioteca ambulante retirou-lhes o divertimento. Trouxe-lhes as histórias, desafiou o grupo a ouvirem a Sílvia a ler «Às vezes um abraço não chega». O ruído não gostou muito (...)
Olhares de curiosidade perseguem a biblioteca ambulante, desde o início da rua, na aldeia do Brunheirinho, até ao local onde as histórias tiram a preguiça, abrindo as páginas de par em par. É junto da fonte, do banco vazio de pessoas, e cheio de sol, dos aparelhos de ginástica, nos quais os velhos estiram os membros superiores e inferiores. Espaço adequado para quem quiser, também, esticar um pouco mais o conhecimento, puxarem pela mente, regulando a maioria das funções (...)
A manhã acordou cinzenta, a poeira iludiu-me, a sua semelhança com a densidade do nevoeiro, normal nas manhãs de inverno, obrigou os condutores a manterem os faróis dos veículos acesos. O largo do Cabrito, tem os lugares habituais de estacionamento ocupados, a biblioteca ambulante ficou em segunda fila, sem estorvar os automobilistas e peões a deambularem por aqui, olhando com admiração as histórias. Entrou um leitor, mais ouvinte, retira e coloca, hesita, finalmente, traz os (...)
Hoje, o céu é uma cabeça de chuveiro, tem os buracos todos desimpedidos. Tiram vantagem os animais no campo, nas pastagens, têm a erva tenra, a água limpa, condições para crescerem saudáveis. Debaixo deste chuveiro natural não arriscarão banharem-se os leitores, os corajosos que se atiram para baixo do jato de água, podem vir à sauna, a biblioteca ambulante, é um espaço aquecido. Um lugar excessivamente quente, ocupado por histórias, chamas invisíveis, aquecendo quem as (...)
Ninguém está indiferente ao frio, ainda por cima o mercúrio do termómetro está preguiçoso, não sobe além dos 10º Celcius. A chuva amedrontada, cai silenciosamente sobre o vidro grande da biblioteca ambulante, avisando-me da possibilidade de não ter leitores esta tarde. Não foi o aviso, mas a malícia a mencionar a novidade, a água desejada por todos nós, não quer as histórias a disputarem-lhe o lugar no largo do Cabrito. Há espaço para as duas correntes, pluvial e (...)
Os cães ladram, percebo-os, a viatura estranha estacionada defronte do espaço que protegem, a porta grande aberta, objectos estranhos empinados, a convidarem ao manuseamento, à leitura. Uma mulher sentada a vigiar a rua, a falar alto ao telemóvel sem tirar os olhos da biblioteca ambulante. Um gato a espreitar numa janela, tudo isto no mesmo conjunto habitacional. Gente nova, na aldeia do Brunheirinho, futuros leitores, ou será cedo para tal convicção. O som das buzinas das viaturas (...)
A fina neblina permanece estável em toda a planície, após a ponte das Areias o extenso vale que acolhe a aldeia da Bemposta, parece saído de uma história. Os traços do sol espalham-se na planície, nos panos verdes, babetes gigantes a rodearem as oliveiras, impedindo o fruto  perder-se no meio das ervas. Há mais gente com paus a baterem na ramagem das oliveiras, agachados no chão, separando as pequenas letras pretas com as quais se escreve a palavra azeitona das folhas, há sacos (...)