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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

O jorro de água sai com força elevando-se muito alto para atingir o mais longe possível a área de relva a regar. O vento brando, com a água aspergida tornam a tarde mais fresca, nas viagens e andanças. O cheiro da relva molhada é motivador aos sentidos do bibliotecário ambulante. Elimina possíveis ataques de torpor, na ausência de pessoas, de leitores na aldeia, excepcionalmente um automóvel, ou outro atrevem-se a sair, ou a entrar pelo casario adentro, na única estrada a (...)
O dia está com dificuldade e tomar decisões, a incerteza do tempo, as nuvens a passarem no céu, depois chega o sol, sempre cheio de energia. Encaminhará os leitores à biblioteca ambulante, será o dia portador de histórias diferentes. O bairro e tudo o que é circundante transmitem serenidade, à primeira vista não acontece nada. Os sons traem essa impressão, o choro de uma criança, uma mulher a fazer-se ouvir, automóveis que estacionam, outros que saem. As contínuas passagens (...)
A sensação de bem-estar na celebração dos cinquenta anos do 25 de Abril, parece ter sido ultrapassada. O início da semana não sofre qualquer alteração, a preguiça, os dias sem viagens e andanças, é sempre um regresso fatigante. Os leitores talvez padeçam do mesmo incómodo, até ao momento nenhum apareceu na biblioteca ambulante. No bairro onde os prédios altos, e fraccionados, as casas independentes, evidenciam um conjunto de pessoas interessantes. Não anunciam novidades, (...)
O tempo é democrático, apesar dos defeitos que possui. Nem sempre se apresenta no período exacto do seu manifesto, apesar das previsões mostrarem muitas vezes o contrário. Sermos surpreendidos pela chuva abundante logo de manhã, quando acordamos, prontos para um dia primaveril e soalheiro. Ouvirmos o ribombar inesperado da trovoada ao longe, sentindo a mesma aproximando-se zangada. Usarmos vestuário inapropriado num dia desconcertante para a temperatura prevista, que não (...)
Subitamente, dou comigo a olhar as histórias mais recentes na biblioteca ambulante, destacadas, numa posição vertical, debruçadas nas estantes para o pátio das brincadeiras. Como elas, fixo o meu olhar para o mesmo sítio, a sujidade acumulada, vestígios de terra, minúsculos grãos de areias, espalhados no recinto, despertam-me, tenho que deixar a biblioteca ambulante no final do dia, nas instalações onde se limpam e lavam os veículos. O colega responsável pelo serviço irá (...)
Foram raios de sol, os que entraram pela manhã a revirarem do avesso a neblina matinal. Espevitando o estado da prostração, estampada no rosto do viajante das viagens e andanças. Enlearam histórias, como quem liga as linhas nos bordados, retiraram outras para lerem, muita actividade junta para o início da manhã na biblioteca ambulante. Soube em segredo, do descontentamento do proprietário de um café, referente ao estacionamento da biblioteca ambulante, sempre próximo de outro (...)
O vento puxa-me, não quero ir, o arco-íris é a ponte para chegar à outra margem do rio, nas viagens e andanças. O sol rasgou as nuvens ao meio, de um lado há alegria, no outro a tristeza. Em ambos há histórias contadas, há histórias por contar, a biblioteca ambulante está cheia delas. O vento não as levou, não sabe ler, é um conquistador, leva tudo à sua frente, de um momento, para o outro, conquista o mundo. A biblioteca ambulante não é o vento, voa nas asas deste, para (...)
O nevoeiro esta manhã não motiva ninguém a sair de casa para vir à biblioteca ambulante. Só mesmo quem tem de sair, pelo trabalho, pela necessidade de adquirirem géneros alimentícios, irem à farmácia, tão comum nos dias de hoje, as vacinas, os medicamentos, inevitabilidades sem sucesso, pois continuo a encontrar pessoas a fungarem. Caminham na rua encolhidas, o frio pesa-lhes no corpo, sempre apressadas tentando escaparem às maleitas do inverno. Abri a porta grande da (...)
O sol é o amigo, o confidente, o que estimula os ossos velhos, do homem que vê passar os veículos na estrada. Parece o título de uma história escrita por Georges Simenon, a diferença, está na via e no meio de transporte, todas as vezes que a biblioteca ambulante se demora na sua aldeia, vejo-o sempre  de olhar perdido na sua estrada favorita. A única, possivelmente que observa. Também sabe onde estão, onde foram, os que por qualquer razão não se conseguem encontrar, sentado, (...)
As viagens e andanças com letras dissipam-se na névoa obstinada, as palavras das histórias diluem-se na água da chuva. A tarde, assim é um romance inacabado, uma história incompleta, faltando-lhe o derradeiro capítulo. A parte onde alcançaríamos o prazer da leitura, a fatia de bolo desejada por todos. O desenlace não vai acontecer, todas as palavras escritas para o expandir, afogam-se nas lágrimas dos personagens, na última parte da história. A guerra, o excesso de poder, (...)