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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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A memória prega-nos embaraços, nalguns casos sem que o possuidor do constrangimento tenha consciência. Aconteceu com o Gregório, leitor desde sempre na biblioteca ambulante, segundo a sua mulher, a sua memória é um turbilhão de lembranças. A guerra colonial, os ofícios desempenhados ao longo do tempo, são expulsos repentinamente da cabeça. Está nisto, dia e noite, deitado na cama. Fala sozinho, com o silêncio, traz à tona o passado, pedaços de vida desconhecidos, daqueles que lhe estão mais próximos. Um leitor que não voltará a explorar histórias na biblioteca ambulante, durante muito tempo foi o único na aldeia, até há pouco tempo surgir outro. Preferia estar enganado relativamente à doença do Gregório, que voltasse novamente a ler histórias, percorrer o escasso espaço na biblioteca ambulante, rodeado de estantes cheias de aventuras, algumas semelhantes aquelas vividas por ele. O viajante das viagens e andanças, não ficou indiferente, falou com a sua mulher, expressando apoio com palavras, apelando para a sua resistência, e força, no papel de cuidadora do Gregório. Na aldeia das Bicas o sol animou as suas gentes, vislumbro ao longe uma leitora a aproximar-se da biblioteca ambulante para devolver as histórias. Não demorou muito tempo para entrar outra leitora. O sol e a temperatura no momento foram os principais motivos para a conversa instalada, é bom para secar as terras, mencionavam, têm cebolo para colocar na terra, não o fazem por haver muita água, continuavam elas. No batatal, muitos destes tubérculos estão podres por estarem demasiado tempo em contacto com a água, insistiam no assunto. A conversa não ficou por aqui, foram a caminho das suas casas, uma ia caminhar um pouco, passaria pelo cemitério, as ervas daninhas ao redor da campa do pai, não tinham controlo no crescimento, e aproveitar o bom tempo. Talvez cheirar as flores silvestres, o sol desprendeu os odores, como se estivessem presos num frasco, espalharam-se pelas aldeias da minha terra. É como abrir um livro novo, cheirar a tinta, abrindo a porta às palavras, lendo-as de uma ponta à outra, atravessando planícies de páginas, a galgar capítulos florais.