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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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As nuvens e a chuva distanciam-se da aldeia, na Carreira do Mato, dando lugar ao sol. Este não fica muito tempo a brilhar, pouco depois regressam outra vez, projectando violentas bátegas a caírem com um barulho ensurdecedor no tejadilho da biblioteca ambulante. A tasca do Ti Zé está vazia, a televisão transmite a emissão da manhã, ansiosa por alguém se sentar e poisar o olhar na transmissão. A incerteza meteorológica não permite que ninguém esteja sentado na esplanada como é habitual, sempre que as histórias aportam neste cais improvisado. Um rebanho desemboca do arvoredo, duas alas, no meio, a erva oscila sem saber qual a decisão do Condestável de tão inesperado grupo de caprinos. Lentamente, como se tivessem oponentes fortes, ocuparam o espaço intermédio. A luta agora é arrancarem e trucidarem na boca com os dentes a quantidade necessária de erva para encherem a pança. Do meio das nuvens o sol voltou a irromper, a tarde ficou alegre, talvez, surjam os leitores da aldeia, o vento pode dar-lhes boleia, chegarão mais depressa. Muitas vezes os protagonistas, são, o sol, o vento e a chuva, hoje, excepcionalmente, no Vale Zebrinho, aconteceu, uma mãe entrar com a sua filha pequena e ler-lhe uma história (A sopa verde). Um episódio de amor como este, não sucedia há muito tempo na biblioteca ambulante. Numa aldeia de escassos leitores, com gente a trabalhar durante a permanência da biblioteca ambulante na aldeia. Quase sempre não nos vemos uns aos outros, os ofícios das pessoas encontram-se distantes, as aldeias não os conseguem apoiar na empregabilidade. Somente ao fim do dia, aos fins de semana, se juntam todos nas aldeias. Com as famílias, nos cafés ou associações. Vão ver o clube de futebol que representa a freguesia jogar, estão pelos cafés das aldeias, confraternizando uns com os outros. Que bom seria terem umas histórias para preencherem ainda mais o tempo de ócio.