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Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

Histórias à Beira Rio, viagens e andanças com letras pelas aldeias da minha terra

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." Paul Auster

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Atenção redobrada na condução da biblioteca ambulante com destino à aldeia da Foz. Esta aldeia é a mais distante nas viagens e andanças, encostada ao alto Alentejo, confinando com extensões de terra não cultivada do Ribatejo, território de animais silvestres, de gado bovino, disperso, apascentando numa condição quase selvagem. De alguma gente habitando estes campos agrestes, em lugarejos, no apoio, na alimentação suplementar, e água aos animais. Não se vê um palmo à frente da biblioteca ambulante, atrás seguem vários veículos numa marcha lenta, destacam-se os faróis. O nevoeiro continua presente quando deixo a fila de viaturas, mudando de direcção, rumando à aldeia da Foz. Hoje, uma leitora, após optar por uma história, difícil de seleccionar, e ter andando a olhar cima, abaixo, as estantes, afastou-se, dizendo que voltava. Cativei o título e o autor da história no módulo de empréstimos, enquanto ela foi e veio, trazia uma caixa vazia. - Vá ali ao pomar colher laranjas para si. - Disse ela. Agradeci e fui com a caixa ao pomar colher laranjas doces, enquanto percorria a distância até às árvores de fruto, lembrei-me, não há muito tempo fui confrontado, com uma participação numa instrução. Isto aconteceu no seio laboral, constava a mesma de fazer entrar na cabeça, boas maneiras na companhia de outras pessoas, fora do círculo profissional dos colaboradores, no desempenho do seu trabalho. Estou a ver os contínuos bocejos do meus colegas, entediados, a olharem constantemente os relógios, tentando empurrarem os ponteiros para o tempo se apressar. Evitar aceitar ofertas de bebidas, um café por exemplo, ou uma caixa de laranjas, circunstância ocorrida comigo hoje, e outros exemplos sem fundamentos. Quando todos os dias sou confrontado com  notícias de administradores de empresas, políticos, detidos, e arguidos em casos de corrupção, com os advogados sempre a livrá-los da prisão. Teimosamente não frequentei essas horas, evitando assim, um desperdício de tempo, aliviando os leitores com a presença da biblioteca ambulante nas aldeias.  Andamos a atravessar um tempo esquisito, uma democracia mal disfarçada. Qual é o problema de receber, aceitar, de alguém, dum leitor, uma caixa de laranjas, o exemplo de hoje. São acções de gratidão praticam-se de uma forma humilde nas aldeias, no berço da Portugalidade, o interior do país. Reconhecem a importância do trabalho realizado, a consideração da instituição nas suas comunidades. Todos os dias há estes gestos entre eles, permutam fruta, por hortaliça, legumes por ovos, etc. No ano da celebração do 25 de Abril continuam a existirem demagogias menos boas, tentando manipularem os sentimentos, a liberdade. Na biblioteca ambulante, nas bibliotecas, isso não acontece, são espaços abertos a todos, a paixões populares. Continuem a frequentar as bibliotecas, para serem melhores a fomentarem a humildade, a honestidade e a bondade.

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